Mudança de Endereço

Caros leitores, Após cinco anos ocupando este espaço no wordpress.com, o Estante da Sala agora é ponto com. A versão nova já está no ar e as postagens passarão a ser feitas neste endereço. Peço aos leitores que assinam o conteúdo por RSS ou outras ferramentas que façam essa alteração. Ainda estou testando o novo espaço e alguns problemas podem aparecer nesse começo. De antemão aviso que os links dentro de postagens que vinculavam a outro texto seguem direcionando para este endereço aqui, tendo em vista que teria que alterar manualmente os cerca de trezentos posts. Espero que com o passar do tempo o espaço novo fique mais próximo ao ideal e também aceito sugestões e dicas. Agradeço a compreensão em relação a fase de adaptação. Sejam bem vindos à nova casa! Acesse aqui: estantedasala.com   novo blog

A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars/2014)

Ao chegar em casa após ter assistido A Culpa é das Estrelas, do diretor Josh Boone, lancei um questionamento ao twitter: “Seria o Augustus de A Culpa é das Estrelas o primeiro manic pixie dream boy?”. Meu amigo Breno prontamente responde que essa pedra já havia sido cantada por Matt Patches, da Vulture, em um ótimo artigo seu.

Pois bem, todos os sintomas estão lá: Gus (Ansel Elgort) é engraçado, bem-humorado e parece ter como único objetivo de vida motivar Hazel (Shailene Woodley), enquanto esta passa por um pesado tratamento em seu câncer terminal (chegando mesmo a ocultar dela seus próprios problemas pessoais). Nós sabemos que ele também se curou de câncer, não sem ter perdido uma perna, que tem um grande amigo, Isaac (Nat Wolff) também com câncer e até chegamos a ver seus pais, embora estes pareçam não ter papel nenhum em sua vida. O fato é que ele jamais chega a ser um personagem definido e plenamente desenvolvido, funcionando apenas como complemento a Hazel. É uma alma livre, como uma “manic pixie dream girl“, mas resume-se a isso: um artifício narrativo utilizado para gerar reações na protagonista. Enquanto ela tem uma visão bastante pragmática da vida, ele a incentivará a experimentar coisas novas, sendo um namorado docemente mandão, levemente stalker, presente em tantas obras adaptadas da literatura Young Adult, como bem frisa Patches.

Não há nada de errado em apaixonar-se e viver intensamente. Menos ainda quando são pessoas que não podem contar com o dia do amanhã. Mas Hazel começa o filme com uma narrativa em off que diz que este não seria um daqueles romances perfeitos, em que tudo se resolve (outra ferramente narrativa, aliás, já utilizada pelos roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber em 500 Dias com Ela). Mas não é? Hazel é linda, mora em uma casa bacana, tem os pais mais compreensivos do mundo, encontra o namorado tão-perfeito-que dá-medo, faz sua viagem dos sonhos e segue a lista. Ah, tem a doença terminal, não é mesmo? Mas com exceção de uma mochila com tanque de oxigênio que precisa ser carregada sempre com ela, essa parece pouco lhe afetar o cotidiano.

Acrescento a isso outras coisas que me incomodaram. Devo dizer que toda a sequência na casa de Anne Frank foi de extremo mau gosto e mesmo desnecessária. Qualquer comparação entre estar doente, por mais grave que seja a doença, e ser um perseguido do regime nazista, é extremada. O beijo e os aplausos que se seguem só funcionariam no universo da fantasia. Essas pessoas nunca viram um beijo antes? O comportamento em relação a ex-namorada de Isaac é no mínimo repreensível. A garota não tem direito a ter controle sobre seus sentimentos e sua vida? Além disso, me parece emocionalmente abusivo pedir para uma pessoa que escreva o discurso que fará em seu enterro para que possa ouvi-lo antes de morrer.

Apesar de toda a inverossimilhança, me deixei envolver pela história e até me emocionei, embora sempre cônscia de que estava sendo manipulada pela narrativa. Achei interessante a escolha das roupas de Hazel. A figurinista Mary Claire Hannan vestiu-a quase sempre em calças capri ou com as barras dobradas de maneira a ficarem mais curtas. Aliadas as camisetas básicas da personagem, passam uma ideia de que sua vida realmente parou aos 13 anos, quando seu tratamento começou. O tempo passou, ela cresceu, mas é como se ainda vestisse as roupas dos seus 13 anos, agora curtas demais. Em três momentos ela veste calças longas e são aqueles em que ela leva sua vida adiante. São eles (spoilers): o embarque para a Holanda, o dia em que beijou Gus pela vez e o dia em que este lhe contou que seu câncer havia retornado. Este último também é marcado pela única vez em que seus jeans não estão acompanhados por camisetas, e sim uma camisa de botão com estampa delicada e um casaco vermelho sobre ela, conotando o momento ao mesmo tempo sensível e intenso que se desvelou.

Shailene Woodley mostra-se novamente uma ótima atriz, carregando a personagem principal com grande carisma. A história é até bonitinha, só não consegui encontrar no filme o que haveria de tão revolucionário nela, para tantos clamarem que agora o surpreendente em Hollywood parte da literatura YA.

culpa das estrelas

 

 

Figurino: Três Homens em Conflito – construção de arquétipos

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 07/05/2014.

 

Três Homens em Conflito (The Good, The Bad and The Ugly) é o terceiro filme da Trilogia dos Dólares, dirigida por Sergio Leone, que também inclui Por um Punhado de Dólares e Por uns Dólares a Mais, todos protagonizados pelo chamado Homem Sem Nome. Como muitos filmes do gênero western, este explora largamente o uso de arquétipos muito bem definidos e o figurino de Carlo Simi busca destacá-los.
No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.
Dessa forma, somos apresentados primeiramente a Angel Eyes (o “mal” do título original, interpretado por Lee Van Cleef), que de forma bastante significativa utiliza um chapéu preto e uma jaqueta encerada suja, além de uma espécie de echarpe branca.

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Já seu contraponto, apelidado de Blondie (o “bom”, interpretado por Clint Eastwood), aparece pela primeira vez de costas, utilizando um sobretudo claro e bastante limpo, em contrate com os demais homens da cena. Além disso o chapéu branco e a echarpe preta o colocam claramente em oposição ao outro.

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Trata-se de homens não só sem nome, mas sem passado e sem uma história que lhes sustentem as ações que transcorrem em tela, que aparecem motivadas pela recompensa mais imediata: o dinheiro.
A ética de Tuco (o “feio”, interpretado por Eli Wallach) oscila conforma sua conveniência. Ele aparece ao ser capturado por Blondie, no que depois se revelou ser um esquema para dividir o prêmio que estava sendo oferecido por ele. Veste colete de lã e camisa suja. Posteriormente trocará esta roupa por um poncho esfarrapado e uma camisa em mau estado. Sempre se apresenta de maneira desconjuntada, ao contrário dos outros dois protagonistas, que, se não limpos, pelo menos vestem trajes bem cortados.

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É interessante notar que em meio a tanta devastação, encontra-se certa vaidade expressa nas escolhas das vestimentas dos personagens. A estampa da camisa de Blondie é um exemplo, parecendo quase extravagante nesse contexto em que há pouca diversidade de cores nos trajes, de maneira que textura é essencial para criar variação visual.

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Chapéus com borlas em franja de certos pistoleiros e mesmo esporas bem polidas (e sugestivamente enquadradas) podem-se somar à lista.

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A partir de meados da trama, Blondie passa a vestir um colete de pele de carneiro, sobre o qual posteriormente acrescenta um sobretudo simples. Ao se deparar com um rapaz morrendo, ferido na Guerra da Secessão, o cobre com o casaco para trazer um pouco de calor aos seus últimos minutos. Blondie reflete que nunca viu homens tão desperdiçados como na guerra. Chama a atenção esse comentário, vindo do código de honra de um pistoleiro e caçador de recompensas. Ele esboça um movimento para pegar o casaco de volta, mas opta por deixá-lo com o rapaz. Esse momento é uma clara demonstração de empatia e até mesmo bondade por parte dele, embora bondade nesse lugar seja relativizada. Ele jamais pode ser visto como um mocinho convencional, mas ao abrir mão de uma peça de sua roupa, demonstra ainda ser capaz de se comover.

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Os três personagens voltam a se encontrar ao final: Tuco portando trajes rasgados, dignos de sua ética dúbia, enquanto Angel Eyes e Blondie estão novamente limpos, mas com uma diferença: este último agora passa a usar um poncho, que acaba por remeter diretamente às roupas usadas pelo Homem Sem Nome nos outros dois filmes da trilogia e compor a aparência mais icônica do personagem.

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Três Homens em Conflito é um clássico do western e, como a maior parte dos filmes do gênero, tece sua trama em torno de elementos específicos que se repetem. Embora a moralidade dos personagens possa ser questionada, não é raro ver mocinhos e vilões serem identificados de forma simples e direta através da cor de seus chapéus. Aqui não se foge a essa diretriz, mas vemos certas alterações e desenvolvimentos, especialmente de Blondie. Leone gosta de closes e por isso detalhes das vestimentas são sempre trazidos para perto do espectador. Apesar de não ter uma grande variedade de roupas apresentadas, trata-se de um filme com estética icônica e trajes competentes na construção dos arquétipos que os vestem.

Malévola (Maleficent/ 2014)

Dando sequência a tendência de recontar contos de fadas conhecidos, desta vez é a própria Disney que o faz, utilizando como base sua animação A Bela Adormecida, de 1959, para então relatá-la sob o ponto de vista de Malévola, a vilã daquela versão. A animação, embora visualmente bastante bonita, com cenários e fundos modernos e uma bela trilha sonora, tem uma história que datou (se é que já não era datada ao ser lançada): princesa Aurora foi amaldiçoada por Malévola e morreria aos 16 anos. Foi presenteada por fadas-madrinha com o dom da beleza e do canto (quem precisa de outra coisa, não é mesmo?) e criada por três delas na floresta. As fadas tentam se adaptar a papéis tradicionalmente tidos como femininos (limpar, cozinhar e costurar) sem auxílio de mágica, mas com resultados duvidosos. Aurora pouco faz ou fala no filme, mas a tal beleza e canto são o suficiente para Príncipe Phillip querer salvá-la. E sobre Malévola, nada a seu respeito é contado, de forma que faltam motivações para toda a ação.

Na versão de 2014 Malévola começa como uma criança em um reino encantado com criaturas estranhas, fadas e ninguém para governar. Com cabelos soltos, chifres e longas asas plumadas, é uma criatura mágica que não parece ser ameaçadora. Desenvolve uma amizade com Stefan, uma criança humana que aos poucos se afasta, passando cada vez mais tempo com os seus companheiros de espécie. Já crescidos, Stefan (Sharlto Copley) reaproxima-se dela, aproveitando-se de sua amizade. Em um sono induzido por uma droga escondida em uma bebida, Malévola (Angelina Jolie) repousa seu corpo no chão e ao acordar percebe que suas belas asas haviam sido roubadas. Essa é uma das cenas de maior impacto no filme: Jolie imprime dor sem tamanho nos gritos de sua personagem e é possível sentir a agonia em seu corpo torturado quando levanta-se e busca apoio. Nunca esperei encontrar em um filme da Disney um retrato tão aberto de violência sexual em uma metáfora tão pouco oculta. É interessante que o conto original de Bela Adormecida termina quando esta acorda com o parto de bebês gêmeos, após ter sido estuprada por um príncipe. Nada de beijo de amor verdadeiro. Malévola não é, aqui, a vilã má e forte apenas por ser: seus atos se constroem sobre sua própria história de fragilidade. Quando fala “há mal nesse mundo” pode-se entender que não referencia ao amargor em seu coração, mas ao homem que roubou uma parte de si. Nada mais compreensível do que, após ter seu corpo violado por um humano em quem confiava, querer infligir dor a ele. E esse momento chega com a festa de batizado de princesa Aurora. O diálogo que se segue é idêntico ao da animação, com uma exceção: Malévola ordena que Stefan peça perdão, e com isso ela mesma altera a maldição, que não mais acarretaria no sono da morte, mas sim em um que seria despertado por um beijo de amor verdadeiro. Esse lampejo de esperanças para os pais é falso, visto que ela mesma frisa em certa hora que “não existe amor verdadeiro”. É uma questão importante para alguém que teve o amor traído.

O Rei Stefan parte da exuberância dos azuis e dourados para o traje negro de quem vive em eterna paranoia, pensando na proteção da filha. Já Malévola vai da criatura livre, descalça, pertencente a natureza, com longos cabelos soltos e vestidos fluidos marrons até uma vestida de negro, contida, que oculta seus cabelos em turbante com a aparência dura como carapaça e que ostenta claros sinais de perigo, como garras, dentes e pele de cobra em seus acessórios.

Sua trajetória se marca na mudança das estações: primavera na infância, verão na juventude, outono após ser violentada (perceba como ela escurece tudo ao seu redor) e por fim, inverno, quando Aurora já é uma jovem, alimentando animais na floresta, a quem sempre está a observar. (Ao fim do filme o calor faz-se novamente presente.)

Para fugir da maldição, Aurora (Elle Fanning) é criada na floresta por suas três fadas-madrinhas, Flora (Lesley Manville), Fauna (Juno Temple) e Primavera (Imelda Staunton). Alguma agência lhe é conferida: ela explora o entorno por conta própria e até mesmo decide partir para morar em outro lugar, mas está longe de ser o foco da trama. Elle Fanning é adorável como sempre e o papel não lhe exige muito mais do que isso. As duas protagonistas se encontram e ao contrário do que poderia se esperar (e do que Malévola esperava) Aurora não teme. A figura que surge das sombras para revelar-se a ela tem a mesma silhueta da personagem da animação.

Se a busca por lidar com o que lhe aconteceu através da vingança parece justificada no filme, é um pouco decepcionante que a redenção de Malévola venha de um suposto instinto maternal: ao proclamá-la livre e dona de suas ações, a Disney parece voltar atrás ao mostrar que maternidade e bondade estão intrinsecamente conectadas e que esse papel tradicional (socialmente delegado às mulheres) a salvaria. Isso é ainda mais preocupante quando a narração fala sobre sua infância como “a época em que tinha coração puro”. Ao ter sua confiança traída e seu corpo invadido, deixou de ter coração puro? A dicotomia clichê entre “santa e puta”, a primeira expressa na maternidade benevolente e a segunda na sua reação após os atos de Stefan, macula um pouco a própria mensagem do filme.

Ainda assim é poderoso novamente ver um filme voltado para crianças em que as mulheres não necessariamente precisam de homem ao seu lado para terem seu final feliz. Pode-se dizer que o desfecho é parecido demais com o da recente animação Frozen, mas ainda assim os dois configuram uma exceção tal em meio a tantos filmes infantis que é cedo demais para levantar a questão da previsibilidade. A pequena aparição de príncipe Phillip (Brenton Thwaites) serve para reforçar o quão estúpido é desejar que duas pessoas tão jovens e que mal se conhecem amem-se verdadeiramente.

Esse é o primeiro filme dirigido por Robert Stromberg, que antes trabalhava no departamento de arte, sendo responsável pelo de design de produção de filmes como Alice no País das Maravilhas e Oz: Mágico e Poderoso (este último com grande semelhança em termos estéticos com Malévola). Houve, em seu trabalho, uma certa indulgência com uso de CGI, que mostra-se excessiva no reino de Malévola e mesmo nas criaturas que lá habitam.

Angelina Jolie está impecável, parecendo que nasceu para o papel. Mesmo com as próteses que alteram as formas de seu rosto, nunca esteve tão bela. Outro destaque é o simpático corvo Diaval, interpretado por Sam Riley, que funciona bem como sidekick, seja em sua forma humana ou animal.

Apesar de vários pequenos problemas, Malévola é bom entretenimento, traz uma roupagem modernizada para uma história datada e levanta questões de gênero interessantes, embora algumas dessas talvez passem batidas para as crianças. A personagem-título é fascinante. Talvez tenha faltado alguma coragem para a Disney em adotar uma protagonista puramente má, que opta pela vilania apenas para ver o caos que daí vem. Por outro lado, como acontece com o filme de 1959, seria difícil entender a falta de motivação da personagem e nutrir empatia por ela. A construção que vemos é crível e humana, sendo ao mesmo tempo forte e vulnerável. Como um todo, o filme me surpreendeu positivamente.

maleficent

 

 

 

Filmes Assistidos em Maio

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O de sempre: não gosto de dar notas aqui no blog, porque eu tendo a mudá-las constantemente conforme a digestão da película. Dessa forma essas notas abaixo são o reflexo da minha avaliação neste momento, não são sedimentadas: servem apenas como base para ter uma noção do quanto gostei do filme (ou não). Nem todos os filmes foram vistos pela primeira vez. A lista está em ordem cronológica da data em que foram assistidos e a avaliação é de zero a cinco. Separarei dessa ordem filmes que assisti por motivos e temáticas específicas. E o mestrado segue mantendo contagem baixa de filmes que não foram vistos para fins específicos.

 

Filmes sobre casamento (em continuação ao mês de abril e assistidos para o curso Marriage and the Movies: A History, disponível em Coursera.org):

Desencanto (Brief Encounter /1945) ★★★★½

Suspeita (Suspicion/ 1941) ★★★★

Desde Que Partiste (Since You Went Away/1944) ★★½

A Difícil Arte de Amar (Heartburn/1986) ★★½

A Guerra dos Roses (The War of the Roses/ 1989) ★★½

 

Apreciação de irmãos Coen (motivada pelo podcast sobre seus filmes no Cinema em Cena):

Gosto de Sangue (Blood Simple/ 1984) ★★★★½

Arizona Nunca Mais (Raising Arizona/ 1987) ★★★½

Ajuste Final (Miller’s Crossing/ 1990) ★★★½

Barton Fink- Delírios de Hollywood (Barton Fink/ 1991) ★★★★★

Na Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy/1994) ★★★½

 

Demais:

O Clube dos Cinco (Breakfast Club/ 1985) ★★★★★

The Lunchbox (Dabba/ 2013) ★★★★

Revenge of the Electric Car (2011) ★★½

Hoje eu Quero Voltar Sozinho (2014) ★★★★

Monstros (Monsters/ 2010) ★★★

Yves Saint Laurent (2014) ★★★

O Cineasta da Selva (1997) ★★★★

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past/2014) ★★★★½

O Sentido da Vida (The Meaning of Life/ 1983) ★★★★

 

19 filmes assistidos

Quem está apto a falar sobre cinema?

Ano passado Tatiana Feltrin, dona de um canal no youtube sobre literatura, fez um vídeo sobre quem pode falar a esse respeito. Suas considerações estão abaixo:

Esse vídeo serviu de gancho para algumas conversas que tive recentemente sobre quem está apto a falar sobre cinema. Quando escrevo “falar sobre cinema” não quero dizer apenas em âmbito profissional: trata-se de falar por falar, de opinar e comentar. Tenho ouvido constantemente sobre as redes sociais e como hoje em dia todo mundo pode ser crítico de cinema. Todos tem a possibilidade de, ao assistir um filme, externar as suas impressões acerca dele através de ferramentas como twitter e facebook. E me peguei pergunta: qual é o problema?

O cinema é uma das formas de expressão artística mais populares, talvez perdendo apenas para a música nesse quesito. Pessoas de diversas vivências e trajetórias consomem filmes e estes também são dos estilos e gêneros mais diversos. Toda arte é feita para gerar reações em seu público. É natural que expectadores tenham desejo de compartilhar suas opiniões sobre o que viram e os tempos atuais nos fornecem ferramentas que permitem isso com facilidade.

Não há porque tratar cinema como algo intelectualmente elitizado, sobre o qual apenas acadêmicos e especialistas podem proferir suas palavras. É claro que existe margem para interpretações aprofundadas, mas vale lembrar suas origens no uso de câmera para trucagens e na expressividade do vaudeville, teatro amplamente apreciado.

Parece que com o passar do tempo uma aura de preciosidade encobriu-o, o que é reforçado por falas tanto de críticos quanto do público. Ainda esses dias, em uma grande mesa após um evento acadêmico, mencionei meu interesse em ver X Men: Dias de um Futuro Esquecido, ao que outra pessoa respondeu que eu tinha que ver Praia do Futuro. Calma. Uma coisa exclui a outra? Porque eu pensava que uma pessoa poderia ver filmes de gêneros diferentes sem que isso a limitasse ou a rotulasse, mas para alguns, certos tipos de filmes carregam um estigma negativo indelével. Há algo de errado em afirmar a vontade de ver um filme de super-herói? Pelo menos em minha opinião, não.

Há algum tempo, em uma entrevista, um crítico de cinema afirmou que para exercer tal profissão o ideal era que a pessoa tivesse tido contato e assistido muito filmes (especialmente clássicos) desde a infância, pois depois seria difícil conseguir recuperar, por se tratar de um número elevado de produções. É claro que uma bagagem grande de filmes auxilia na leitura, seja por comparação ou contextualização. Referencial teórico ou  imagético sempre ajuda. Mas será que ele  necessariamente precisa vir do maior número possível de filmes assistidos? Não me considero crítica de cinema, mas escrevo sobre o assunto. Não escondo o fato de ter crescido com pouquíssimo acesso a filmes, mas amplo acesso a livros. E eles me ajudam a ter leituras específicas sobre os filmes que vejo e considero esses conhecimentos bastante importantes para a formação do que eu capto e compreendo nas obras. Mas jamais ousaria dizer que são essenciais, nem mesmo ideais. Talvez me possibilitam uma forma de ver diferente e mais profunda em um aspecto, assim como uma grande bagagem de filmes assistidos possibilitaria em outro, mas não tornam uma maneira melhor do que a outra. Cada tipo de informação que o expectador possui contribui, mas não é a única. Dessa forma, alguém do dito “grande público” que não possua nenhum dos conhecimentos citados, ainda assim está apto a formar uma opinião baseada exclusivamente naquilo que viu e na subjetividade que se criou com ato de assistir. E aí, voltando ao começo do texto, essa opinião pode ser expressa, seja de forma oral ou de forma escrita. Quem pode dizer que esse público não deve escrever suas opiniões?

Muitos discursos sobre “arte boa” e “arte ruim” (ou até mesmo “arte verdadeira”) rodam pela internet, juntamente com esses sobre quem pode falar a respeito de arte. Acredito que devemos ter um posicionamento menos limitado e aceitar que expressões artísticas das mais diversas convivem lado a lado, bem como opiniões e percepções dentro de variados contextos. Há espaço para todos.

critic

 

X Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past/ 2014)

Quando li a série de quadrinhos na qual se baseia X Men: Dias de um Futuro Esquecido, me peguei coçando a cabeça, intrigada. A história era fraca e infantil, tendo pouco conteúdo bom que se salvasse. Pois bem, parabéns aos envolvidos na adaptação do roteiro, pois o que se vê é uma trama coesa, que descarta muito do material de origem, mas se reconstroi de forma a se conectar adequadamente com os três primeiros filmes da franquia. Aliás, combinação dos atores deles com os do último filme, Primeira Classe, são um dos pontos fortes, visto que há muito carisma no elenco e personagens saudosos que não víamos há algum tempo.

No futuro revemos Professor Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen), que se unem para, com ajuda de Tempestade (Halle Berry), Homem de Gelo (Shawn Ashmore), Bishop (Omar Sy), Kitty Pride (Ellen Page), Wolverine ( Hugh Jackman), entre outros, tentar mudar o destino dos mutantes, que foram quase totalmente dizimados. No ano de 1973 Mística (Jennifer Lawrence) matou Bolívar Trask (Peter Dinklage), dono de uma empresa que havia criado grandes robôs, chamados Sentinelas, para caçar mutantes. Acontece que tal ato, ao invés de acabar com a perseguição a eles, levou as lideranças políticas a intensificarem-na. A ideia da equipe no futuro é utilizar os poderes de Kitty Pride de forma a permitir que Wolverine volte ao passado para impedir os acontecimentos fatídicos e apagar essa linha do tempo, com ajuda versões mais novas de Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender). (Nos quadrinhos é a própria Kitty quem viaja no tempo, mas visto que o carcamano é o mais popular dos personagens na franquia cinematográfica, tal papel foi transferido a ele).

É interessante o contraponto que é feito entre o futuro e o passado. O primeiro é marcado pela desolação e já nos é apresentado com imagens que remetem ao regime nazista, o que ajudaria a justificar as motivações de Magneto em unir-se a Xavier, visto que ele é sobrevivente dos campos de concentração. O visual remete a outras distopias totalitaristas e os mutantes utilizam roupas que estilizam armaduras. Já o passado vem com uma paleta de cores bastante apropriada, contendo marrom, abóbora, vinho e verde-musgo, além de cenários e roupas adequadas ao período. Dessa forma o filme oscila entre o real e a fantasia, incorporando até mesmo elementos como a assassinato do presidente americano John Kennedy. O realismo já é indicado quando Wolverine desperta em 1973 e as duas primeiras coisas que avista são uma cortina em tons laranjas e uma lâmpada de lava; e posteriormente, ao acordar em outro momento, se depara com uma cortina em tons neutros uma lâmpada com holograma, deixando marcada, através da mudança de elementos recorrentes, a passagem de tempo.

O Xavier de McAvoy funciona como um mocinho falho, entregue a álcool e droga, quebrado por suas perdas e sem confiança nas suas capacidades. Magneto, em contraponto, é dominado pela autoconfiança e tem certeza de seus ideais. Assim temos o que considero um dos fatores que tornam os X Men os super-heróis mais interessantes: eles representam uma minoria social e os dois personagem são lideranças que simbolizam duas abordagens no ativismo: a luta legal, integrando-se pacificamente à sociedade ou através de desobediência civil; e por outro lado as táticas de enfrentamento através de guerrilha. A beleza está no fato de que se tratam de personagens tão bem desenvolvidos, que é fácil compreende-los e aceitar suas decisões como coerentes, ainda que nem sempre aprovando-as.

Com Jennifer Lawrence, Mística ganhou uma ambiguidade e uma fragilidade que não demonstrava antes. Trata-se da personagem mais interessante dos últimos dois filmes, pois trafega sob os dois pontos de vista, dividida entre duas ideologias e dois amores.

Magneto é um homem vaidoso e seu apreço por métodos menos ortodoxos fica patente na assimetria presente em diversos de seus trajes, que utiliza como que para demonstrar seus pensamentos não convencionais. Já Xavier e Wolverine entregam-se à moda setentista (o último mais que o primeiro), com camisas estampadas e jaquetas de couro (vinho para o primeiro e marrom para o segundo). Trask simboliza sua busca pelo poder em suas gravatas largas e com estampas marcantes, dignas de um homem de negócios de presença forte. Apenas Fera (Nicholas Hoult) fugiu da moda mainstream. 

As referências presentes no filme são significativas. O X dos mutantes aparece em diversos momentos, como em reflexos de luz, formato de móveis e gravadores de fita, o que confere mais peso ao fato de vermos o que parece esse formato repetido em uma viga que esmaga Xavier em certo momento, como se o próprio peso de suas escolhas estivesse ali representado. Em outro momento Capitão Kirk aparece em uma televisão, quase como uma piscadinha em relação aos recentes encontros entre Spock antigo e novo nos filmes recentes de Star Trek e os acontecimentos semelhantes deste filme.

Com momentos de humor, ação e drama bem balanceados, o filme é eficiente em fazer uso dos mutantes que aparecem e se houvesse algo a reclamar, seria justamente a ausência ou participação pequena de alguns, pois o elenco já era bastante extenso. (Vampira e Noturno, senti falta de vocês). X Men: Dias de um Futuro Esquecido demonstra que aos catorze anos de idade a franquia ainda tem fôlego para mais e o diretor Bryan Singer talentosamente permite, com o desfecho, diversas possibilidades de continuação.

Obs: Foi bastante divertida a participação de Mercúrio, o filho não declarado de Magneto.

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