99- A Revolução dos Bichos (Animal Farm/1954)

Assistido em 17/05/2013

há tantos quadros na parede
há tantas formas de se ver o mesmo quadro
há palavras que nunca são ditas
há muitas vozes repetindo a mesma frase:
(ninguém = ninguém)
me espanta que tanta gente minta
(descaradamente) a mesma mentira

todos iguais
todos iguais
mas uns mais iguais que os outros
(Engenheiros do Hawaii – Ninguém=Ninguém)

O ótimo livro a Revolução dos Bichos, de George Orwell, foi lançado em 1945. Orwell, mais conhecido pelo romance anti-totalitarismo 1984, era um socialista democrático com influências anarquistas. O livro se trata de uma fábula satírica sobre uma revolução traída, que traça paralelos com a Revolução de 1917 na Rússia. Na história, o fazendeiro Sr. Jones (que seria o Czar ou o governo antigo) é um bêbado inveterado que não cuida bem de seus animais. Certo dia esqueceu-se de alimentá-los e eles se rebelaram, tomando a fazenda para si. Foram estabelecidos sete mandamentos nesse momento. O velho porco Major (um misto de Marx e Lenin) lembra a todos que os animais são todos iguais e devem cuidar para que ninguém volte a ocupar o posto de Jones. Dois porcos se destacam nessa etapa inicial: Bola-de-Neve (Trotsky), que quer expandir a revolução para os animais de outras fazendas e Napoleão (Stalin), que expulsa Bola-de-Neve e centraliza o poder. Depois da ascensão de Napoleão, os animais, especialmente o cavalo Sansão (Boxer, no original), passaram a trabalhar mais e comer menos, pensando no futuro descanso, enquanto os porcos aos poucos foram adquirindo hábitos cada vez mais parecidos com os dos humanos. A sete leis da revolução original foram subvertidas ao ponto de nada mais significarem.

A animação inglesa de 1954 foi parcialmente financiada pela CIA como propaganda anti-comunista. Apesar da mídia escolhida, não se trata de um filme para crianças, já que a adaptação é bastante fiel e a violência e opressão estão bem marcados. A qualidade da animação é bastante boa. O que chama a atenção é a mudança no final da história. Considerando que o filme deveria servir como propaganda, o final do livro é muito mais efetivo nesse sentido, com os porcos se tornando tão opressores quanto os humanos, culminando com a parceria entre eles e os próprios humanos. Ou seja, nessa visão, nada diferencia os líderes revolucionários dos piores capitalistas. Já no filme, os demais animais se unem contra os porcos, deixando uma mensagem um tanto quanto… anarquista? Não sei o que a CIA pretendia com isso, ou se foi uma decisão artística do estúdio, mas não só tirou todo o peso do final do livro, como ainda passou uma mensagem ambígua. De qualquer forma vale a pena tanto ler quanto assistir.

98- O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of the Sierra Madre/ 1948)

Assistido em 15/05/2013

O Tesouro de Sierra Madre mereceu se tornar um clássico do gênero de aventura. O filme não cansa por um minuto sequer e os personagens, embora não muito desenvolvidos, são suficientemente interessantes. A história se passa no México, onde Dobbs (Humphrey Bogart), o aventureiro de chapéu surrado, está sempre pedindo dinheiro a outros americanos para sobreviver. Junto com Curtin (Tim Holt) conseguem convencer o velho Howard (Walter Huston) a formar uma sociedade e ajudá-los a procurar ouro para minerar. Aí começa a aventura, que envolve bandoleiros mexicanos, policiais, índios, paisagens áridas e claro, ouro. E com o ouro vêm as desconfianças, a ganância e um forasteiro atrás de sua parte. Walter Huston rouba todas as cenas em que aparecem. Não a toa ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante, fazendo com que sua família faturasse três estatuetas com o filme, já que a direção e roteiro, também premiados, são de seu filho John Huston. Vale a pena ver, nem que seja só pra pensar o quanto do filme inspirou Indiana Jones…

97- Camille Claudel, 1915 (2013)

Assistido em 12/05/2013

Esse é aquele tipo de filme que traz má fama ao cinema francês :P . Foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês e resolvi assisti-lo por que tratava dessa figura interessantíssima que é a Camille Claudel, talentosa escultora que foi aluna e amante de Rodin. O filme se passa em 1915, quando Camille (Juliette Binoche), já com cinquenta anos, está há dois confinada em um manicômio, tomada por esquizofrenia e depressão. Ela pensa que querem roubar seus trabalhos para que Rodin possa apresentá-los como seus e acha que todos estão tentando envenená-la. Entre os gritos de outras loucas, ela mesma enlouquece naquele confinamento. O ambiente é cinza: todos se vestem em tons de preto, cinza e marrom e mesmo as pedras e vegetação não fogem dessa cor. Juliette Binoche interpreta muito bem o desespero e a aflição. O problema é que fora isso isso, pouco ou quase nada acontece no filme. Chama atenção que em determinado momento, seu irmão, Paul Claudel, fala sobre ela com um padre e diz que a sua loucura se manifesta no sonhos de grandeza e no sentimento de importância. Em seguida ele, recém convertido ao catolicismo, fala sobre seu desejo de ser a voz de Deus através de seus escritos, sendo ele próprio megalomaníaco. E essa pessoa é que julga que ela é incapaz de deixar o manicômio. Como alguém com sonhos de grandeza pode julgar os mesmos de outra pessoa como loucura? Infelizmente, mesmo em um filme biográfico, uma mulher tão forte como Camille acaba sendo definida pelos homens que a rodeiam, seja seu ex-amante ou seu irmão.

96- O Sétimo Selo (Det sjunde inseglet/ 1957)

Assistido em: 11/05/2013

Um homem jogando xadrez com a Morte. Essa é a premissa básica de O Sétimo Selo, dirigido por Ingmar Bergman. Antonius Block (interpretado por um jovenzinho Max von Sydow) acabou de retornar das cruzadas com seu escudeiro Jöns. A Morte aparace e diz que o tem acompanhado há muito tempo. Ele propõe que, ao invés de ir imediatamente com ela, joguem uma partida de xadrez e se ele vencer, tem a chance de ficar. A partida acontece de forma espaçada, permeando o filme e avançando a cada reencontro entre os dois. Nesse meio tempo, Antonius viaja para voltar a sua casa e no caminho encontra um casal de artistas mambembes com um bebê, Jof, Mia e Mikael. Ao lado desse arquétipo da sagrada família, verá seu país varrido pela peste negra, a ascensão dos católicos fanáticos autoflageladores e se questionará sempre sobre a vida, a morte e deus. Não é um filme divertido, no sentido estrito da palavra (e nem se propõe a ser) embora tenha um certo humor. É, sim, um filme intrigante e aborda a questão da fé de um jeito tão literal que não vemos mais hoje em dia.

95- De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut/ 1999)

Assistido em 10/05/2013

Esquema de cores retirado do blog Movies in Color

De Olhos Bem Fechados é um filme prejudicado pela publicidade mal feita. Propagandeado (e, na época, polemizado) como um suspense erótico, o erotismo passa longe de sua história, embora a nudez esteja lá o tempo todo. Trata-se de uma história de dominação e certa obsessão, protagonizada pelo casal queridinho de Hollywood naquele momento. Possivelmente eles nunca estiveram tão bonitos como nesse filme (embora a atuação de Nicole Kidman esteja longe de ser boa). O personagem principal, Dr. William”Bill” Harford (Tom Cruise) e sua esposa Alice Harford (Nicole Kidman), são convidados para uma festa da alta sociedade, como é habitual. Alice está linda e é elogiada por todos menos pelo próprio marido, que sequer se vira para olhá-la quando ela pergunta se está bonita. Na festa, ele a deixa sozinha e ela bebe demais. Um figurão pede para dançar com ela e flerta abertamente. Ela vê seu marido entretido com duas jovens. Ao chegar em casa os dois discutem. Segundo Bill, ele não tem ciúmes dela porque é mãe de sua filha. Sua presença ao seu lado é garantida, mulheres não possuem esse tipo de desejo e ele não faz sexo com outras pessoas em sua consideração. Em resposta ela fala que nas férias, por muito pouco não largou tudo e foi embora com outro homem que só a havia olhado. Bill recebe um telefonema avisando que um paciente havia morrido e sai de casa durante a madrugada. E o que se segue são seus os desvarios de controle. Ele não aceita que Alice tenha desejos próprios, que não envolvam a pessoa dele. Afinal, conforme seu pensamento, mulheres não vêm sexo da mesma forma que os homens. Tudo que acontece desse momento em diante são seus desejos ( sexo com prostituta, com menor de idade, em grupo) e seus medos (homofobia, doenças venéreas, a descoberta da sua identidade, violência e morte). No seu olhar, todas as mulheres são submissas, daquela que vai casar com um homem que não ama as que usam máscaras e se despem diante de todos em um ritual. Mesmo uma moça morta é referida apenas como um objeto de desejo, “com belos seios”. Em sua própria imaginação a visão de Alice fazendo sexo com o desconhecido militar das férias o atormentam. Certas partes do filme funcionam de forma quase onírica, deixando o público decidir o que e real e o que não é. Embora a nudez e o sexo apareçam constantemente em cena, sempre são de forma distanciada e fria. O filme se fecha na negação do desejo. Falar que a fotografia e a escolha de cores de Kubrick são certeiras é chover no molhado. As cenas, especialmente na mansão onde se passa a orgia, são lindas. Os tons de vermelho e dourado permeiam o filme de maneira marcante. É um ótimo desfecho para sua carreira.

94- A Escolha Perfeita (Pitch Perfect/ 2012)

Assistido em 09/05/2013

“But if you think this is just some high school club where you can sing and dance your way through any social issue… Or confuse sexuality, you have come to the wrong place. There is none of that here. That’s high school. This shit is real life. NOW. don’t just bring it, sing it, and let’s do this.”

Em A Escolha Perfeita, Beca (Anna Kendrick) é uma jovem que vai para a universidade com o sonho de ser DJ e resolve se inscrever na seleção para um grupo de canto a capella só para mulheres, The Bellas. Com a fala citada acima dá-se aberto o processo de seleção. É uma clara referência ao seriado Glee, querendo dizer que nesse filme a coisa é séria. Bom, não é.

Para falar a verdade eu gosto bastante desses filmes (cheios de clichês) que envolvem competições musicais (e de dança também). Desde Mudança de Hábito até Escola do Rock, considero todos guilty pleasures divertidos. E embora o filme se proponha a ser mais sério e ainda alfineta Glee, ele é visivelmente um filhote deste com Bring It On (inclusive fizeram um cover de Hey Mickey, a música que mais fez sucesso neste). O problema nesse filme é que os personagens são bastante rasos. Se ao terminar você não conhece sequer a protagonista, o que dizer dos demais? Além disso todos os personagens são estereótipos ambulantes. Somado a isso, ainda é racista em relação a orientais. Se tirássemos as músicas, pouco ou quase nada sobraria da história. Cada etapa da narrativa, da pela líder controladora, da tentativa de inovar com elementos menos rígidos (geralmente de hiphop), das dificuldades para chegar à competição até a superação são absurdamente previsíveis.

Dito isso, ainda assim me diverti bastante. O humor às vezes não é dos melhores (e apela para escatologia em duas ocasiões), mas tem vários momentos engraçados. Duas coadjuvantes se destacam nesse sentido, Fat Amy (Rebel Wilson) e Lilly (Hana Mae Lee). Claro, para quem gosta, há as músicas. (E colocou Clube nos Cinco no roda, me pegou num ponto fraco. Don’t You Forget About Me é daquelas músicas pra levar pra sempre).

93- Platoon (1986)

Assistido em 08/09/2013

O jovem Chris (Charlie Sheen) se voluntariou para ir à guerra do Vietnã. Ao chegar lá ele explica que fez isso porque só pobres vão para a guerra, porque um rico não pode ir também? Alguns colegas riem e falam que ele “é um idealista”. Sim, o diretor e roteirista, Oliver Stone, é um idealista. Tendo ele mesmo servido no Vietnã, também como voluntário, aquilo que viu nos é mostrado pelos olhos de Chris. A narrativa é episódica e os acontecimentos parecem servir apenas para ressaltar que nada daquilo fazia sentido: tudo era o caos. Os soldados têm que lidar com os nervos à flor da pele, as decisões que podem ferir determinados códigos de moralidade, as mortes estúpidas, a crueldade, matança e estupro. O elenco de apoio é bastante bom. O que incomoda é a mão pesada do diretor/roteirista nos pensamentos de Chris, narrados em voice over. As frases, especialmente na cena final, são extremamente moralistas e destoam do contexto. Para falar a verdade, embora o filme tenha uma poética própria, não gostei dele. O gênero de filme de guerra prejudica nesse sentido. Talvez venha a desenvolver esse gosto com o tempo. (Foi assim com Nascidos para Matar, pelo menos.)

Obs: Infelizmente para mim, o que deveria ser uma das cenas mais dramáticas do filme, foi arruinada por eu ter visto Trovão Tropical antes. Spoiler no vídeo: