Noé (Noah, 2014)

O antropólogo alemão Franz Boas afirmou que o mito tem origem histórica e se baseia no cotidiano do próprio povo que o criou. Por outro lado, defendeu que ele pode se espalhar através de difusão para outros povos que tenham proximidade geográfica. Ainda assim, seria possível encontrar relatos similares entre povos sem contatos anteriores, caso houvesse a possibilidade de uma causa primária similar. Grande parte dos povos da antiguidade buscavam se fixar nas proximidades de rios, porque facilitava a obtenção de água e alimento. Assim, eventualmente, uma cheia periódica poderia ser maior do que as normais, levando a busca por uma explicação e uma significação que geraria diversos mitos de dilúvios. Um deles é o mito judaico, também presente na crença cristã. O fato desta história ter significado religioso para grande parte da população ocidental é provavelmente o maior ponto gerador de falta de compreensão relacionado ao filme Noé, dirigido por Darren Aronofsky.

Primeiramente é preciso ressaltar que o filme não é uma adaptação diretamente da história bíblica, mas sim de uma reimaginação feita para quadrinhos pelo próprio Aronofsky. De qualquer forma é preocupante a falta de entendimento do que significa a palavra “adaptação”, ou, pior, a falta de entendimento seletiva, visto que adaptações de outras mitologias raramente geram controvérsias quando ocorrem alterações em relação à fonte. noah graphic novel Dito isto, Noé é sim um belíssimo filme. Falho, certamente, mas forte e interessante. O personagem-título, interpretado por Russel Crowe, da décima geração após Adão, acredita estar recebendo em sonhos mensagens do Criador (chamado desta forma ao longo de todo o filme). A humanidade estava destruindo a criação e a solução para isso seria removê-la da Terra através de um Dilúvio e  então recomeçar. O mundo se divide entre os descentes de Caim, liderados por  Tubal-cain (Ray Winstone), e os de Seth, terceiro filho Adão e Eva. A família de Noé seria a última dessa linhagem. Ele seria o escolhido para executar essas ordens e construir uma grande arca para abrigar sete pares de cada animal puro e dois pares de cada animal impuro, de maneira a repovoar o planeta. Uma das diferenças entre os descendentes de Seth e os de Caim é que os segundo alimentam-se de carne, por acreditar que esta lhe dá força, enquanto os primeiros apenas se alimentam de ervas e frutas. Embora tenha visto muitas reclamações a respeito desse retrato, ele seria biblicamente apurado na interpretação literal, visto o ser humano foi criado (em uma visão bastante antropocêntrica) para reinar (cuidar e proteger) sobre os animais e só receberia autorização para se alimentar deles após o dilúvio, quando grande parte da vegetação morreu submersa. Por isso a ordem de levar sete pares dos animais puros, que são os animais “kosher”, aqueles aptos a serem ingeridos na tradição judaica.

Matusalém (Anthony Hopkins), avó de Noé, aparece aqui como uma espécie de conselheiro da família. Quando Noé está em dúvida sobre como prosseguir, consulta-o e este o entrega uma bebida que afirma ser um chá, bastante escuro. Impossível não pensar, neste momento, nas religiões baseadas na ayahuasca, em que o chá é bebido e a pessoa passa a ter mirações (visões), sendo que uma cobra brilhante é presente em diversos relatos, tendo especial significação entre os povos indígenas que fazem uso ritual. Não é de se estranhar, visto que o filme parece tomar uma vertente bastante gnóstica do mito, cheia de dualismos místicos. Noé novamente adormece para então ver uma serpente cintilante, aquela do Jardim do Éden e então receber a confirmação das ações a serem tomadas. A serpente vem, depois, a ter importância simbólica, quando seu couro é utilizado para simbolizar a liderança da humanidade através dos primogênitos, enrolado ao braço com um tefilin da tradição judaica.

Repetidamente flashes de imagens da maçã, da serpente e de Caim matando Abel, acompanhadas de um ruído agudo, se inserem em meio à narrativa. Ao mesmo tempo mostram um passado da humanidade que parece nos destinar ao erro e um momento em que a estética de Aronofsky se faz fortemente presente, pois esse tipo de corte rápido, quase publicitário, costuma aparecer em seus filmes. Aliás, em se tratando de autoralidade, não é difícil de perceber a mão do diretor atuando por trás da produção, apesar de se tratar de um filme de estúdio. Outra sequência, também belíssima, é aquela em que Noé conversa com sua esposa Naameh (Jennifer Connelly) e vemos apenas seus perfis negros contra um céu colorido de entardecer. Além dessas, destaco também o relato dos sete dias da criação, em que este fala “no princípio não havia nada” e à partir daí vemos os animais evoluírem em tomadas que parecem animações em quadro a quadro, até a criação dos humanos, seres etéreos e iluminados que viviam no Éden. (Essa é, novamente, uma visão gnóstica, em que somos criados na luz e adquirimos carne e peso material apenas após a expulsão).

Para sua empreitada, Noé conta com o auxílio de gigantes de pedra, que na verdade são os anjos caídos, que não receberam perdão do Criador por querer ajudar os humanos após a expulsão do Éden. Embora cause estranhamento, gigante filhos de anjos caídos e humanas são mencionados na Gênesis da Bíblia. Aqui eles auxiliam no desmatamento da floresta enviada pelo Criador para fornecer madeira à construção da arca e no próprio feitio. Seu visual é bastante interessante, parecendo mover-se, com desconforto, de uma forma que se assemelha ao stop motion de Ray Harryhausen. Aos poucos os animais vão migrando e chegando até o grande barco. Em muita cenas a computação gráfica deixa a desejar e a aparência deles não é crível.

Foi-me perguntado sobre minha opinião à respeito do figurino e devo dizer que é uma tarefa difícil avaliá-lo, como deve ter sido difícil elaborá-lo. Primeiramente porque se trata de uma reinterpretação de um mito, o que o situa em lugar nenhum em uma escala temporal como conhecemos. Se levarmos em conta a interpretação literal, teríamos que a criação ocorreu a cerca de 6 mil anos e, sendo Noé da 10ª após Adão, mas já com 600 anos na época do dilúvio, pode-se dizer que talvez tenham passado uns mil anos. Ainda assim, isso localizaria o mito no período Neolítico, em que os humanos vestiam apenas peles e usavam ossos para fechamento. Por essa época as primeiras roupas de tecidos confeccionados com lã e outras fibras naturais estariam surgindo. Mas como sempre falo, figurino de época não é (apenas) sobre representação literal do período retratado e em se tratando de um mito, há maior liberdade. Assim, o figurinista Michael Wilkinson misturou peças de épocas variadas, deixando o couro e o metal  para os descendentes de Caim (pelo fato de comerem animais e terem maior tendência bélica) e as fibras naturais para a família de Noé. A exceção são as botas,  que me pareceram ser de couro. Os tecidos parecem tingidos com corantes naturais, obtendo paletas sutilmente diferenciadas, entre cinzas, cremes, marrons e até mesmo azul-arroxeado, sempre presente nas roupas de Naameh. As costuras à mão são visíveis e bem feitas.  Dado o nível de dificuldade e subjetividade do trabalho, acredito que o resultado é bastante interessante.

Além de Noé e Naameh, a família é composta por Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), jovem que encontraram com um ferimento no abdômen quando criança, adotaram e tornou-se companheira de Sem. Em virtude de seu ferimento, acreditava-se que Ila seria estéril. Por sua vez, Cam, mostrava-se preocupado com a falta de uma esposa para ele, o que acarretou graves desentendimentos entre ele e o pai. Antes de começar as cheias, Matusalém abençoa Ila e reverte sua aparente infertilidade. Já durante o dilúvio, quando lhe é relatado o acontecimento, Noé se enfurece, pois passara a acreditar que estava nos planos divinos que a humanidade fosse extinta para que o restante da criação pudesse viver sem perturbação. Assim, seus filhos seriam os últimos homens da terra. Em um momento bastante inspirado na história de Abraão, Noé pega uma faca para matar as crianças que nasceram de Ila. Mas ao contrário da história que inspirou esse momento, este não é um teste de fé ditado pelo próprio Criador: trata-se de um momento de soberba extrema em que, considerando-se o enviado, passa a criar possíveis interpretações para as mensagens que afirma ter recebido em sonho. É o poder do auto-convencimento e o senso de importância se manifestando.

Dessa forma, pode-se dizer que o filme tenha três vilões: a humanidade que destruiu as demais formas de vida e destrói a si mesma em lutas violentas pela sobrevivência; o Criador, que não possui misericórdia e ordena matanças de inocentes por achar que algo deu errado em sua própria criação; e por fim, o escolhido, um homem tão falho quanto aqueles que condenou à morte, à imagem e semelhança de seu Criador.

O filme não se poupa de retratar a “Vergonha de Noé”, trecho do mito que já apareceu em diversas obras de arte ao longo da história e que explica a divisão da humanidade em tribos diversas após o dilúvio.

A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo

A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo

Embora tenha sido pungente a forma como Naameh pediu desculpas a Ila ao informar que havia tido duas meninas, não deixa de ser significativo o discurso ao final de que essas duas serão as responsáveis por recomeçar a humanidade. É revigorante ver que a culpabilização das mulheres, tão fortemente marcada na mitologia judaico-cristã, aqui é contrabalançada pela esperança em relação ao futuro colocada em duas inocentes meninas. O arco-íris ao final marca as pazes feitas entre Criador e criaturas.

Um grande erro do filme é, especialmente do meio para o fim, perder-se em certas cenas excessivamente melodramáticas. As cenas de luta corpo a corpo também mostram-se bastante desnecessárias no contexto geral. Mas, fora isso e o fato de ter um CGI nem sempre competente, trata-se de uma narrativa forte e intensa, recheada de belas cenas e atuações competentes. Não está nem perto de ser a maior realização de Aronofsky, mas ainda é uma obra a ser admirada. Noah-poster

Figurino: A Época da Inocência

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 27/03/2014.

“O que você ganharia, passando por um escândalo?”
“Minha liberdade.”

A Época da Inocência é um filme que se destaca pela curiosa temática na filmografia do diretor Martin Scorsese. Após filmes como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros, aqui ele nos entrega uma história de amor trágica, que dizem ter clamado ser seu filme mais violento. Baseado no livro homônimo de Edith Wharton, a trama é realmente brutal no retrato de sentimentos intensos que não podem ser revelados. A figurinista Gabriella Pescucci opta pela composição realista do período, criando ambientação perfeita para o drama., na Nova York da década de 1870.
A história começa, muito apropriadamente, em uma ópera. Todos no teatro usam seus binóculos, mas não para ver melhor a peça e sim para observar uns aos outros. Newland Archer (Daniel Day-Lewis) quer anunciar seu noivado com May Welland (Winona Ryder). A prima desta, Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer) acabara de chegar da Europa, separada do marido, gerando grande escândalo e por isso ele precisa apoiar a família da noiva, para que a reputação deles não seja manchada, garantindo que seu próprio casamento seja menos escandaloso. Trata-se de um mundo de regras, aparências e falsidades. Newland segue todas elas à risca, embora intimamente goste de pensar em desafiá-las.
May é jovem, bonita, não possui muitas opiniões próprias e é a esposa perfeita, moldada pela mãe e pela sociedade em torno dela. Ao início do filme, como moça solteira que é, tende a dar preferência às cores claras no seu vestir. Por vezes seus vestidos serão acrescidos de um detalhe em tule ao redor dos ombros, funcionando como uma espécie de véu que cria efeito etéreo, ressaltando sua inocência.

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Era costume que moças solteiras vestissem branco ou cores muito claras em ocasiões sociais formais. Pode-se perceber isso na cena do baile na casa dos Beaufort.

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Logo na primeira aparição, sabemos que Ellen será um contraponto a May: o contraste entre seu vestido azul vivo contra a alvura virginal do traje daquela já deixa tal fato patente. Ellen não está acostumada aos costumes conservadores de Nova York. Em certo momento a narração fala que ela não sabia que em uma festa, por exemplo, uma mulher não podia se levantar para ir conversar com um homem, ato comum na Europa e inofensivo para ela.

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Após ser apresentada a Newland, este passa a se sentir atraído pela sua forte personalidade e presença. Ela começa a vestir-se predominantemente em tons de vermelho, o que é sugestivo não só por ser uma cor que significa paixão, como também por ser bastante ousada para o período. Como frisou uma senhora em certo momento do filme, Ellen vestiu cetim preto no baile de sua apresentação à sociedade. Ela jamais se importou com as convenções sociais.

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O cinema já possui um certo histórico de vestidos vermelhos usados como retrato de audácia de mulheres à frente de seu tempo e que foram punidas por isso. Jezebel (no filme homônimo de 1938), Scarlett O’hara (em … E o Vento Levou, de 1939) e Anna Karenina (no filme de mesmo nome, de 2012) foram algumas, apenas para exemplificar.
Jezebel em imagem colorizada do filme de 1938, Scarlett O’Hara, em 1939 e Anna Karenina, em 2012: mulheres que ousaram querer ser livres em suas respectivas histórias.

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Jezebel em imagem colorizada do filme de 1938, Scarlett O’Hara, em 1939 e Anna Karenina, em 2012: mulheres que ousaram querer ser livres em suas respectivas histórias.

É interessante notar que Anna Karenina e A Época da Inocência acontecem no mesmo período. Assim, percebemos a diferença entre um figurino estilizado (o primeiro) e um fiel à época ( o segundo), com saia mais estreita, jaquetas justas e anquinhas.
Detalhe de quadro de Tissot de 1873 e croquis representando a moda do período.

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Detalhe de quadro de Tissot de 1873 e croquis representando a moda do período.

Passado o período de aproximação, quando Newland admite suas intenções, Ellen utiliza um vestido verde-água com detalhes em renda quase jovial. Muitas coisas se passam no plano do desejo e quase tudo fica subentendido com delicadeza e certo erotismo, como quando ele desabotoa a luva dela para beijar seu pulso, no interior de uma carruagem. Desde Gilda uma luva não era tão significativa.

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May pode parecer alheia a tudo que acontece, mas isso não reflete a realidade. A narração explica que era costume que as mulheres usassem seus vestidos de casamento durante um ou dois anos depois de casadas, em eventos sociais. Ela nunca havia feito isso, até a noite decisiva em que garantiu a continuidade deste. Assim, o vestido acabou por marcar a estabilidade da instituição que representou.

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“Dava menos trabalho seguir as tradições: não havia necessidade de tentar emancipar uma esposa que não tinha a menor noção de que não era livre.”

Ao decidir voltar para a Europa, Ellen aparece, pela primeira e única vez trajada em negro, como faria uma senhora casada mais velha, segundo os costumes. Assim, também, se marca o fim de sua liberdade.

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O design de produção do filme como um todo é extremamente caprichado e destacam-se os quadros presentes nas casas de todos os personagens, que falam muito a respeitos deles. Ellen, por exemplo, possui muitos quadros impressionistas, muitos dos quais sequer haviam sido pintados à época, mostrando, mais uma vez, seu senso de vanguarda.

Cena ao ar livre comparada com quadro pós-impressionista Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat

Cena ao ar livre comparada com quadro pós-impressionista Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat

A pintura, aliás, parece ser de grande influência na composição das cenas e na fotografia: cenas internas se aproximam da estética do Romantismo, enquanto externas referenciam (por vezes até mesmo diretamente) pinturas impressionistas. O figurino é apenas um elemento a mais nessa obra intensa, que conta com direção competente e execução primorosa.

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Fonte da Vida

Todo mundo falando de Noé e eu, atrasada no bonde, ainda não tinha visto nem Fonte da Vida, dentre os trabalhos da filmografia de Darren Aronofsky. Pode-se dizer que o filme é o pai menos bem executado de A Árvore da Vida, por lidar com temáticas semelhantes relacionadas à vida, morte, amor e luto.

Hugh Jackman é Tom Creo, um cientista que procura uma cura para a doença de sua esposa Izzi, interpretada por Rachel Weisz. Izzi estava escrevendo um livro, mostrado na própria trama, como metáfora desta busca: Tomás, o protagonista, é um desbravador espanhol no século XVI em busca da Árvore da Vida no novo mundo, para presentear a Rainha Isabel com sua seiva, que garantiria a vida eterna. Mas essa história permanece inacabada e Izzi incube Tom de terminá-la. Ao tentar lidar com a dor e o medo, este ainda projeta uma terceira realidade à trama, em que aparece como uma espécie de monge tonsurado, no século XXVI, em uma bolha que flutua no espaço, na companhia de uma árvore. Como uma árvore, o Tom do futuro tem a passagem do tempo marcada em si através de anéis. Estes foram tatuados por ele mesmo, partindo de um no dedo anular, em substituição a aliança perdida.

Os paralelos entre as três jornadas são simples e efetivos. Amor é o que permeia tudo e Tom precisa aprender a conviver com a perda. Hugh Jackman entrega uma interpretação marcante. Já Rachel Weisz não tem muito sobre o que trabalhar, pois sua personagem é pouco desenvolvida e pouco mais é que o tropo do interesse amoroso que morre para o despertar do herói.

Confesso que achei de mau gosto usar o conhecido genocídio perpetrado pelos espanhóis na América como metáfora da luta pela vida da amada. Ainda que se tratando do livro de Izzi, não seria possível outro ato heroico, que não envolvesse a morte de pessoas que não tinham relação com o problema pessoal do casal?

De qualquer forma, Tom é consumido pela tentativa de recuperá-la e ao se entregar, volta e renasce, como em um ciclo de vida místico.

A trilha sonora por vezes chama atenção excessiva para si. Juntamente com certos efeitos especiais já próximos do final, cria cenas inintencionalmente cômicas. Mas de uma forma geral, o visual do filme é muito bonito, especialmente nas sequências que se passam na bolha.

Quando Tom desapega da Izzi ideal que mantem em si, encontra um Amor ultrapassando a eternidade. Bastante comovente, o filme consegue superar seus próprios defeitos.

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Filmes assistidos em Março

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Não gosto de dar notas aqui no blog, porque eu tendo a mudá-las constantemente conforme a digestão da película. Dessa forma essas notas abaixo são o reflexo da minha avaliação neste momento, não são sedimentadas: servem apenas como base para ter uma noção do quanto gostei do filme (ou não). Nem todos os filmes foram vistos pela primeira vez. A lista está em ordem cronológica da data em que foram assistidos e a avaliação é de zero a cinco. Separarei dessa ordem filmes que assisti por motivos e temáticas específicas.

Apreciação de Phillip Seymour Hoffman (em continuação ao mês de fevereiro):

Dúvida (Doubt/2008) ★★★★

Quase Famosos (Almost Famous/2000)★★★★

 

Cinema Escandinavo (em continuação ao mês de fevereiro e assistidos para o curso Scandinavian Film and Television, disponível em Coursera.org):

O Ato de Matar (The Act of Killing/2012)★★★★

A Rainha do Castelo de Ar (Luftslottet som sprängde/2009)★★★

Minha Vida de Cachorro (Mitt liv som hund/1985)★★★½

A festa de Babette (Babettes gæstebud/1987)★★★½

Sorrisos de Uma Noite de Amor (Sommarnattens leende/1955)★★★★

Em um Mundo Melhor (Hævnen/2010)★★★★

Brothers(Brødre/2004)★★★★

Depois do Casamento (Efter brylluppet/2006)★★★½

Ondas do Destino (Breaking the Waves/1994)★★★½

Ninfomaníaca: Volume 1 (Nymphomaniac: Vol. I/2013)★★★★

Ninfomaníaca: Volume 2 (Nymphomaniac: Vol.II/2013)★★★½

O Amante da Rainha (En Kongelig Affære/ 2012) ★★★

 

Demais:

Blackfish (2013) ★★★★★

Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr./2001) ★★★★

Anjos e Demônios (Angels & Demons/2009) ★

Robocop (2014) ★★★

Apollo 13 (1995) ★★★★½

Valmont – Uma História de Seduções (Valmont/1989)★★★★

Tess – Uma Lição de Vida (Tess/1979)★★★

Rurouni Kenshin (2012)★★

Ed Wood (1994) ★★★★

O General (The General/1926)★★★★

Segredos de Sangue (Stoker/2013)★★★★

Frozen- Uma Aventura Congelante (Frozen/2013)★★★★

Priscila, a Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert/1994)★★★★

Uma Aventura Lego (The Lego Movie/2014)★★★

Tatuagem (2013)★★★★★

Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum (Inside Llewyn Davis/2013)★★★★

A Época da Inocência (The Age of Innocence/1993)★★★★★

 

31 filmes assistidos

Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2 (Nymphomaniac: Vol. I and Vol. II/ 2013)

Ninfomaníaca é o terceiro filme da trilogia que Lars von Trier criou para lidar com sua depressão (precedido por Anticristo e Melancolia) e foi dividido em dois volumes para lançamento no cinema porque a duração ficou muito longa. É impossível analisá-los de maneira separada (pois fica patente que compõem um filme só), mas ao mesmo tempo há uma quebra de ritmo e de clima em relação ao que é exibido em cada um deles.

Sexo e religiosidade são temas recorrentes do autor. Aqui novamente eles aparecem como protagonistas. O professor Peter Schepelern, da Universidade de Copenhagen, em sua aula sobre o cineasta, afirma que as protagonistas de Von Trier são mártires em mundo pronto para julgar sua sexualidade. Isso se aplica a Bess em Ondas do Destino. O seu pecado é crer nas pessoas e ao crer, fazer sexo com desconhecidos para salvar o marido. A comunidade cristã a rejeita, mas seus atos vem do mais puro louvor infantil a divindade de sua crença (que se manifesta nela falando com voz grave, de olhos fechados). Bess é punida e isolada da sociedade pelo sexo que faz, querendo apenas fazer o bem. É interessante que ela fala que todos nascem bons em alguma coisa e que ela é boa nisso, porque jamais demonstra nenhuma forma de prazer com o ato sexual, nem mesmo com seu marido. Embora se considere boa, ela é apenas um receptáculo do desejo alheio.

Mas Grace, em Dogville, é punida pelo e através do desejo dos outros. Em Anticristo, a mulher protagonista (sem nome) lida com a culpa pela morte do filho, como se fosse uma consequência direta de seu desejo sexual. Em uma simplificação, ela entende que a mulher equivale à natureza e esta é a origem de todos os males. Novamente sexo é usado como punição. O espelho de vênus (símbolo do feminino) é o T da palavra anticristo nos créditos. É difícil enxergar nessas obras o martírio da liberdade sexual e não a punição pura e simples.

Em Ninfomaníaca, parece que Von Trier comenta sua carreira e a percepção que as pessoas tem de sua obra. Embora o filme tenha sido divulgado amplamente como um trabalho beirando o pornográfico, isto está longe da realidade. Joe (interpretada na versão mais jovem por Stacy Martin) encara o sexo com naturalidade. Decide livrar-se de sua virgindade sem grandes alardes e aí reside sua primeira decepção: vai descobrir que os homens a viam como receptáculo do desejo, assim como a Bess. (Percebi que chega, mesmo, a usar seu short de vinil vermelho com meia de renda que Bess usa, no início do filme). Isso fica claro quando relembra o número de vezes que Jerôme (Shia LaBeouf) a penetrou, sem preocupações com seu prazer. Suas ações, como a “pescaria” de homens no trem teriam causado estranhamento fosse ela um homem? Certamente que não.

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Short vermelho de Bess em Ondas do Destino, usado por Joe

Daí para frente ela agirá quase que por necessidade, parecendo só fazer por prazer realmente após a morte do pai (Christian Slater). Esse momento constitui o único em que parece que von Trier quer chocar e desconecta-se do restante da primeira parte do filme. O pai, aliás, sempre foi compreensivo. Não podava suas brincadeiras na infância (como pretendia fazer a mãe) e lhe mostrava as belezas do mundo, ensinando-a a explorar seus sentidos: veja as árvores, sinta o vento, a vida é prazerosa.

Ainda assim, ela é sua maior crítica: ao ser encontrada ferida e desacordada por Seligman (Stellan Skarsgård), passa a relatar sua vida com culpa e julgando-se errada diversas vezes.

A conversa com Seligman só demonstra novamente que von Trier encara a dicotomia homem versus mulher como a Natureza e Cultura, a dicotomia amlamente utilizada em estudos antropológicos. O homem em questão pontua a narrativa com conhecimentos sobre religião, música, literatura e mesmo pescaria, , enquanto a mulher fala de instintos e vicências e desconhece tudo o que lhe é explicado.

A história, como em seus filmes anteriores, é dividida em capítulos, mas von Trier chama atenção para esse ato ao destacá-lo como artificial: Joe nomeia os capítulos observando objetos de Seligman e relacionando-os a sua história. Este não é o único momento em que o autor explicita que tudo não passa de ficção. Em certo ponto Seligman parece ele mesmo se defendendo das acusações que lhe foram feitas ao falar “Ser antisionista não é ser antisemita”. Em outro momento Seligman destaca a improbabilidade de algo relatado por Joe, ao que ela responde que isso não importa, é só uma história, destacando que no final, por mais que analisemos a obra, tudo não passa de linguagem cinematográfica e invenções.

Com o mote “mea vulva, mea maxima vulva”  do clube de meninas de que Joe faz parte, fica clara a mensagem de subversão da culpa cristã (que ela absolutamente não possui), como um grito de liberdade daquelas jovens em relação ao próprio corpo.

Mas de certa forma Joe é punida por suas ações, e já sabemos disso ao vê-la ferida, largada em uma rua, ao começo do filme. Mas na primeira parte realmente não parece que isso parta de um desejo íntimo do diretor: a narrativa parece absolvê-la dos pecados que ela mesma enxerga, sendo estes marcados pela sociedade ao seu redor. O filme possui uma leveza impressionante e até certo humor (com destaque para a participação de Uma Thurman como Sra. H).

Assim como há uma troca de atriz (para Charlotte Gainsbourg) , parece que Joe muda sua personalidade no segundo filme. Ao assistir o primeiro não vi uma ninfomaníaca e sim uma mulher aberta aos seus desejos em relação a sexo. No segundo parece que na verdade ela era uma viciada funcional, mas passa a ter problemas em controlar a forma de manifestar esses desejos. A necessidade de ser espancada cada vez com frequência maior pelo dominador K (Jamie Bell), negligenciado o filho de forma perigosa, não parece fazer sentido. A personagem apenas quer se punir por algo que até então não era passível de punição. Não demonstra nenhum prazer com os açoites nem parece ter fetiche com a prática. Seu único prazer consiste no breve momento de masturbação contra os livros em que apoia o corpo. A cena em que seu filho acorda sem ninguém em casa, levanta-se e vai até a varanda juntamente com a composição musical que a acompanha, é uma nada sutil referência a Anticristo. Mas enquanto lá a culpa era da mulher, aqui von Trier ri-se falando “o inocente foi poupado” (mas segue a desconfortável culpa).

Nessa metade também von Trier parece querer chamar mais a tenção para o ridículo das situações narradas, como na sequência em que Joe, criança, tem uma visão religiosa.

No primeiro filme, felizmente, não se insinuou nenhuma prática incestuosa entre Joe e seu afetuoso pai. Seria clichê e desnecessário. O incesto acaba aparecendo na segunda parte de maneira indireta. Joe passa a tutelar uma adolescente, P (Mia Goth) que ao chegar a maioridade, vai morar com ela. É esta que faz os avanços, para dor e desespero da própria Joe, que não parecia querer a relação inicialmente. Mas ao envolver-se, surge o primitivo sentimento de posse e com ele o ciúme. E foi isso que a levou a estar largada no beco no início do filme.

Muita gente estranhou o final, mas sendo Seligman a representação da Cultura, é fácil entender que nossa cultura normaliza a violência sexual às mulheres, especialmente àquelas que possuem vida sexual ativa notória. Não destoa do personagem a tentativa de estupro. Ele era apenas um curioso, um teórico que manifestou interesse no que Joe relatou já ter feito com tantas pessoas. A reação de Joe (assim como sua fala no grupo de apoio) ecoa o fala de todas as mulheres do mundo: o corpo é meu, a escolha é minha, a sociedade deveria parar de querer me controlar. A opção por ocultar o desfecho em uma tela negra aumentou o impacto do resultado final.

O segundo filme é menos sobre prazer e mais sobre dor. Ainda assim graças ao desfecho, o que fica é uma mensagem poderosa. Se a personagem principal fosse mais psicológica e mentalmente sã, provavelmente ela seria mais assimilada e aceita mais facilmente. Senti falta da filmagem impecavelmente bonita de Anticristo e Melancolia. Aqui a composição aproxima-se da crueza de Dogma 95. Mas nada que prejudique a obra como um todo. Trata-se de um filme de difícil digestão e que suscita conversas e debates interessantes, o que já é mais que grande parte da produção cinematográfica contemporânea.

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Figurino: Segredos de Sangue – Uso de cores e imagético poderoso

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 13/03/2014.

Às vezes você precisa fazer algo ruim para se impedir de fazer algo pior.

O título original de Segredos de Sangue, de 2013,  é Stoker. Tal nome é uma clara referência a Bram Stoker, autor do clássico Drácula, e entrega uma pista: embora eles não se façam presentes, pode-se dizer que é uma história clássica de vampiros, retratando a solidão, a incompreensão da própria natureza e fazendo relação entre sedução e perigo. Em seu primeiro filme de língua inglesa, o diretor Chan-wook Park constrói um imagético poderoso, com uso característico de cores de forma simbólica, mostrando total controle sobre sua obra. O figurino foi criado pela dupla Kurt Swanson e Bart Mueller, que assinam como Kurt & Bart. Seu trabalho torna-se ainda mais interessante quando percebemos que os próprios personagens relatam a importância que suas roupas possuem em certos momentos da história.
Stoker é o sobrenome da família que protagoniza a trama, que começa no 18º aniversário de India (Mia Wasikowska), quando ela e sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman) recebem a notícia da morte de seu pai, Richard (Dermot Mulroney). A família vive de uma maneira tal, isolada em seu casarão com alguns criados e um vestir peculiar, distante do contemporâneo, que a história poderia ser ambientada em qualquer período até a década de 1950. Tudo é muito contido e a estética remete ao período gótico americano.
Já no enterro podemos perceber que mãe e filha são diametralmente opostas. Evelyn é uma mulher solitária, cujo marido aos poucos parou de lhe dar atenção para ocupar-se da filha. Usa um vestido justo com detalhes assimétricos na gola e um sapato de salto alto. Jovem e bonita, parece querer clamar ao mundo que ainda está viva. Já India sempre vai usar roupas que parecem trajes infantis de outras épocas: blusas soltas e saias em A com corte em viés ou pregas. Veste-se com austeridade, cores neutras e sempre busca a simetria, tanto nos trajes como no cabelo cuidadosamente partido ao meio, passando uma imagem de repressão. Usa sempre o mesmo sapato: um estilo “oxford” bicolor, que acreditava ganhar do pai todo ano em seu aniversário.

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Após o enterro, o misterioso e até então desconhecido tio Charlie (Matthew Goode), irmão mais novo de Richard, aparece. Veste-se de forma preppy, estilo dos mauricinhos americanos, relacionado a colégios e universidades caras, o que também transmite atemporalidade a sua aparência. Seu vestir é prontamente mencionado por pessoas no velório, pois não porta nenhum traje de luto e sua roupa contrasta com os demais.

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Os calçados de India na verdade eram presentes de seu tio: eram uma forma de Charlie criar uma conexão com a sobrinha e tentar controlá-la. Ao mesmo tempo significavam estabilidade e segurança para ela. Em determinado momento do filme, deita-se na cama com todos os pares que usou no passado ao seu redor, como um escudo ou um legado. Sua história e sua jornada de crescimento pode ser contada através dos sapatos, fato que ficará patente ao final do filme.

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Outro acessório importante na história é o cinto de Richard, que Charlie começa a usar. É perceptível sua inadequação, sobrando em comprimento. Quando, em certa cena, o retira, ouve-se perfeita e ampliadamente o couro deslizando sobre o tecido, como um animal rastejaria na relva para chegar a sua presa.

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Após o velório, India usa um vestido cinza e fala explicitamente a sua mãe, como que a recriminando, que está vestindo traje de luto e que no período vitoriano as viúvas faziam isso por pelo menos dois anos. A roupa estabelece um preciso código social.

 

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Mas Evelyn rapidamente vai se livrar do luto e passará a vestir roupas cada vez mais rosadas e mais translúcidas, abrindo-se diante do flerte de Charlie.

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Amarelo é a cor que vai aparecer desde o princípio como um alerta do que está por vir e posteriormente servirá de elemento importante na composição de determinadas cenas. Ela gravita em torno de India e aparece na forma de bolas de tênis que ela espalha na quadra nos créditos de abertura, na decoração do seu bolo de aniversário, nos ovos diante dela na mesa da cozinha, na fita da caixa de presente, apenas para citar alguns momentos.

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Amarelo vem a ser a cor característica do tio Charlie, que ao chegar veste um colete mostarda e ao final da trama, vestirá um pulôver da mesma cor. Como um vampiro, ele jamais come e sempre aparece sem que ninguém perceba de onde ele veio. Como um vampiro, busca companhia para sua vida diferente das demais. Mas na verdade é menos perigoso do que parece: trata-se de um homem com motivações infantis, preso ao passado e por isso tão apegado a essa cor que lembra a infância. Em flashback, a cor marca momento definidor de sua história.

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Na escola, ao vermos os demais alunos com roupas comuns dos tempos de hoje é que fica claro o quanto os Stokers estão deslocados temporalmente, com o contraste entre India e os demais. Quando se veste de verde, é como se carregasse parte de sua casa consigo.

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Ainda lá, na aula de arte, India não desenha o vaso de flores exposto como modelo e sim o padrão amarelo e vermelho que decora seu interior. A combinação se repete nos potes de sorvete e mesmo no seu lápis com a ponta coberta de sangue. O vermelho sempre tem o duplo significado de paixão e de perigo, que aqui caminham lado a lado, sempre vinculados a Charlie.

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Conforme a moral vitoriana, sexo aparece sinalizado como perigo (e vice-versa), como demonstrado pela aranha que sobe pelas pernas de India, para baixo de sua saia. Como criança que era, seus desejos estavam adormecidos. Mas após seu primeiro contato com a morte diante de seus olhos, encontra dor e êxtase. Sexo e morte se atraem na trama. E nesse momento é que deixa de lado sua camisola de algodão e usa uma camisola de seda. Sentiu que precisava vestir algo confeccionado no tecido, como explica à mãe, no quarto dela, com paredes em vermelho intenso.

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O desfecho da história é como o documentário sobre a natureza, que está passando na televisão ligada. Charlie acha que India já é adulta o suficiente e lhe dá um derradeiro sapato como presente pelo seu aniversário: um scarpin de salto alto vermelhado, assinalando ao mesmo tempo a maturidade sexual e o perigo; feito de couro de crocodilo, pois ele vê na sobrinha uma predadora pronta, como o réptil. Anteriormente ele havia dito “nós temos o mesmo sangue” e agora reafirma “eu estava esperando por você”, querendo que ela veja tudo que poderiam compartilhar. Acontece que em um primeiro momento ela rejeita o presente, retornando à segurança de seu calçado preto e branco anterior.

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Só volta a vesti-lo quando percebe que está pronta para a caça, dessa vez por si mesma e não pela intervenção de um terceiro, despertando para seus desejos e abraçando o que seria sua verdadeira natureza.

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A natureza de India, contra a qual não precisa mais lutar, é construída sobre o legado de seus familiares. Com os cabelos e a roupa livres ao vento, encontrou sua maturidade e sua liberdade e seguirá seu caminho marcado em amarelo. As roupas construíram todo o simbolismo do despertar de sua vida adulta.

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Assim como a saia precisa do vento para ondular, eu não sou composta por coisas que são somente minhas. Eu visto o cinto de meu pai atado ao redor da blusa de minha mãe e os sapatos que ganhei de meu tio. Esta sou eu. Assim como uma flor não escolhe sua cor, nós não somos responsáveis pelo que nós viemos a ser. Só quando percebemos isso é nos tornamos livres e se tornar adulto é se tornar livre.

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Segredos de Sangue é uma fábula sobre crescimento. Plasticamente, o filme é belíssimo, de uma maneira que palavras não podem descrever. As roupas entrelaçam-se na narrativa, fato lembrado o tempo inteiro pelos próprios personagens. O figurino extremamente competente da dupla Kurt & Bart apenas coroa o controle que Chan-wook Park tem sobre a estética de sua obra, que é um trabalho audiovisual impecável.

Tatuagem (2013)

Tatuagem é um filme bonito. Bonito nas diversas facetas que a palavra pode expressar ao ser aplicada a um filme. Bonito e talvez até singelo. É o primeiro trabalho de direção de Hilton Lacerda, que vinha trabalhando como roteirista, papel que também ocupou nessa produção. Ficou apenas uma semana em cartaz, após ser alvo da Campanha por Filmes Alternativos em Manaus. (Se você é da cidade, entre na página para ajudar).  Assisti no último dia, em uma sessão com aproximadamente quinze pessoas. Gostaria que a sala estivesse cheia, talvez, para que mais gente pudesse compartilhar de sua beleza. Passados alguns dias, não consigo parar de pensar nele.

Trata-se de um romance e uma história sobre a arte em meio à repressão. É 1978 e o  grupo de teatro Chão de Estrelas alimenta a alma do povo de Recife com suas criações, que vão do teatro ao burlesco, ao mesmo tempo em que temem pela censura que pode ser imposta, em virtude da ditadura militar. O líder criativo do grupo é Clécio (Irandhir Santos), que conta com a amizade e apoio da atriz travesti Paulete (Rodrigo García). O filme é recheado das apresentações dos artistas: números musicais, esquetes, declamações de poemas e citações de autores clássicos. Mas aproxima-se do público como uma obra popular e foge de linguagens que poderiam soar pedantes ou excessivamente acadêmicas. 

Ao grupo junta-se o jovem militar Fininha (Jesuita Barbosa), apresentado por Paulete, cuja irmã namora. Ele se envolve com Clécio e o relacionamento dos dois levanta questões: Fininha é acusado de ser olheiro dos militares e Deusa (Sylvia Prado), mãe do filho de Clécio, diz que não quer que seu filho cresça em contato com gente que vai para a rua reprimir. Embora toque no assunto da ditadura, tudo é feito de maneira leve, como se no Chão de Estrelas a dor jamais chegasse de verdade. O fato de ambos já terem namorado com mulheres não é comentado e não há necessidade. Tudo flui com naturalidade. E é com essa leveza que o a relação entre eles é abordada. Nunca havia visto cenas de sexo em que o corpo masculino aparecesse coreografado de forma tão bela, tão sensual, até mesmo de certo modo objetificado, retratado em abandono total. Trata-se de poesia visual. A relação é de afeto e de crescimento, exibida nos pequenos atos, nos erros e nos perdões. Fininha, no quartel, tatua um C dentro de um coração no peito. Clécio, que é o mais velho, e que poderia ter criado uma relação de poder entre eles, é que é o emotivo, o que se entrega.

A fotografia é muito bonita. O cuidado com os detalhes na recriação da época transparece, especialmente no figurino. As atuações são fantásticas, especialmente de Irandhir Santos. A película tem falhas? Tem. Poderia não ter o filme dentro do filme, com as imagens feitas com câmera caseira? Talvez, mas ao final, o conjunto sobressai-se como coeso e o resultado é elegante e capaz de suscitar emoções positivas.

Fininha vai para São Paulo e escreve que não consegue emprego como segurança, porque tem um coração tatuado. Muito cedo ele aprendeu que a tatuagem é a marca indelével de seu amor e que este não seria aceito, mas mesmo assim iria consigo para todo lugar. O personagem faz uma jornada do milico tímido ao jovem literalmente marcado pelos seus sentimentos. Sensibilidade é o que permeia tudo. Lindo filme.

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